Empresa que funciona sozinha

O que documentar primeiro para a empresa andar sem você

"Documente tudo" é justamente por que a maioria dos donos não documenta nada. Use a sua última ausência como mapa: anote o que quebrou, na ordem em que quebrou.
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O motivo de a maioria dos donos nunca documentar a empresa é que o conselho que eles ouvem é "documente tudo". É o pior ponto de partida possível. "Tudo" é infinito, então o projeto parece um segundo emprego de tempo integral, então nunca começa. O truque é documentar quase nada — só as coisas que quebram quando você se afasta, na ordem em que quebram.

Você já fez a pesquisa. Toda vez que tirou um dia de folga, ficou doente ou simplesmente sumiu por uma tarde, a empresa te mostrou exatamente onde depende de você. Os problemas que apareceram não foram aleatórios. Foram um mapa preciso das lacunas. A maioria dos donos vive esse mapa como estresse e esquece no instante em que volta. O movimento é tratar isso como uma lista de tarefas.

Por que "documentar tudo" fracassa

Uma empresa tem centenas de peças em movimento, e a grande maioria não precisa de processo escrito. São óbvias, raras ou já estão na mão de alguém que domina. Quando você se propõe a "documentar tudo", gasta a energia escrevendo primeiro o fácil e visível — justamente o que nunca foi problema — e se esgota muito antes de chegar nos poucos processos que de fato te prendem. O projeto desaba, e você conclui que documentação não funciona para uma empresa como a sua. Nunca foi a documentação. Foi a ordem.

O objetivo não é um manual completo. É tirar você dos pontos específicos onde a empresa não sobrevive à sua ausência — uma lista curta, que você consegue terminar.

O mapa da dor primeiro

O método é este. Volte na sua última ausência de verdade — ou na semana passada mesmo, nas vezes em que te puxaram de volta. Anote tudo que quebrou, travou ou exigiu você. Depois documente isso, da maior dor para a menor. É o sistema inteiro. A empresa já te disse o que importa; você só está escrevendo em ordem de prioridade em vez de sentir como bagunça.

Se você não lembra de um exemplo claro, faça uma versão pequena de propósito: afaste-se de uma parte da operação por três dias e veja o que volta para você. Cada interrupção é um item do mapa. Cada item é um processo esperando para ser escrito.

Os quatro que sempre entram na lista

Em quase toda empresa, os mesmos quatro tipos de coisa acabam no mapa da dor. Se estiver na dúvida de onde olhar, comece por aqui.

Sérgio tem uma transportadora de pequeno porte em Ribeirão Preto com 12 funcionários e frota de 8 veículos. Depois de uma semana fora para uma cirurgia, voltou para encontrar 3 entregas atrasadas, um cliente cancelado e um motorista que tomou uma decisão de rota errada porque ninguém tinha autoridade para aprovar a mudança. O prejuízo direto foi de cerca de R$ 8.500. Quando mapeou o que quebrou, eram quatro itens. Esses quatro viraram os primeiros documentos que ele escreveu.

Decisões recorrentes. As escolhas que vivem te pedindo — desconto, exceção, compra pequena, encaixe na agenda. Se o mesmo tipo de pergunta volta semana após semana, ela não precisa do seu julgamento toda vez. Precisa de uma regra escrita uma vez.

Um processo que gera receita. A sequência que traz dinheiro ou segura o cliente — como o orçamento é montado, como o pedido é entregue, como um cliente novo é recebido. Quando isso mora só na sua cabeça, cada passo é um lugar onde a empresa trava sem você.

Relacionamentos importantes. Os contatos, o histórico e os combinados não ditos com os seus clientes e fornecedores principais. Se os detalhes desses relacionamentos existem só no seu celular e na sua memória, eles vão embora junto com você sempre que você sai, mesmo por uma semana.

O padrão de qualidade. O que "bom o bastante para sair" realmente significa. Sem um padrão escrito, a qualidade depende dos seus olhos serem os últimos a ver tudo, que é exatamente o que te mantém no circuito. Escreva como é o aceitável, e os outros conseguem entregar nesse nível sem você.

Comece por um esta semana

Você não precisa zerar o mapa de uma vez. Pegue o único item que mais doeu da última vez que você se afastou e escreva esse processo esta semana — uma página, cinco linhas, o formato que cabe num bater de olhos. Entregue para a pessoa que deveria ser dona daquilo e veja onde quebra. Conserte a página. Na semana seguinte, pegue o próximo item.

Documentação feita assim não é um projeto assustador que engole um mês. É uma série de atos pequenos e específicos, cada um tirando um motivo de a empresa precisar de você na sala — construindo as 4 Camadas (decisão, conhecimento, relacionamento, qualidade) na ordem em que elas de fato doem, não na ordem em que parecem arrumadas. O mapa já existe. Você sentiu ele na última vez que tentou tirar um dia de folga. Só falta escrever, um ponto doído de cada vez, até as ausências pararem de quebrar qualquer coisa.

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